Bebeto de Oliveira, um exemplo
Pode-se dizer que Bebeto de Oliveira foi um preparador físico diferenciado. Até nos 80, quando a tecnologia ainda não havia incrementado o setor para medição do real condicionamento físico do atleta, ele já mapeava o problema de cada um, dividia o elenco em grupos, e aplicava os devidos exercícios. Em vésperas de jogos importantes, sabia dosar a carga dos titulares e reservava aos suplentes os trabalhos mais pesados.
Bebeto foi um preparador físico que se exercitava com os jogadores. Ou melhor: puxava a fila. Participava até de testes de velocidade, mostrando que eram capazes de realizar as atividades. A melhor definição sobre o seu trabalho foi dada pelo ex-zagueiro Mauro Galvão, nos tempos em que trabalharam no Vasco, na década de 90: "O Bebeto sabe motivar os jogadores sem ser grosseiro. Ele é muito criterioso".
De fato Bebeto usava muita psicologia para motivar atletas para o trabalho físico. Habilmente incluía na programação exercícios que faziam os jogadores se divertirem ao mesmo tempo. E mais: diferentemente de alguns profissionais da área que ficam de olho na vaga de treinador, Bebeto sempre ficou na dele, e por isso não foi distinguido pela "treinadorzada".
É comum qualquer treinador escolher o profissional de preparação físico de sua confiança, mas paradoxalmente com Bebeto foi diferente. Trabalhou no Vasco da Gama durante dez anos, na década de 90, com diferentes treinadores, e não se tem conhecimento que tivesse desavença com quem quer que seja.
Em sua biografia como preparador físico consta, igualmente, longa passagem pelo São Paulo, na década de 80, culminando com a chegada à Seleção Brasileira em 1987, em companhia do técnico Carlos Alberto Silva, com quem fazia dobradinha no Tricolor paulista.
Quis o destino que Bebeto voltasse ao São Paulo em 2006, numa função diferenciada: supervisor das categorias de base. Ao retornar do Japão em 2004 – após dois anos no futebol oriental – considerava-se aposentado do futebol, se preocupava basicamente com a reforma de sua residência em Campinas, quando o telefone tocou e deixaram o recado para que entrasse em contato com diretores do São Paulo, para desenvolver a nova função. Aí, Bebeto se entusiasmou. Se os problemas cardíacos impediram de trabalhar no gramado, sua vasta experiência na bola poderia ser repassada como supervisor e topou a parada.
Problema cardíaco é uma herança de família. Seu pai, já falecido, foi Barriga, um dos maiores artilheiros de todos os tempos da história da Ponte Preta, que se orgulhou ao ver dois de seus filhos seguirem o caminho da bola. Nenê, um meia já falecido, jogou no Guarani, enquanto Bebeto saiu do juvenil bugrino para se identificar como um esforçado volante na Ponte Preta.
Bebeto era o típico volante de destruição. Consciente que não era organizador de jogadas, fazia o básico ao desarmar adversários, ao optar pelo passe curto. Raramente se mandava ao ataque, mas pontepretanos da velha guarda recordam o melhor jogo que realizou no clube ao marcar dois gols na vitória do time sobre o Paulista, de Jundiaí, por 3 a 2, em Campinas, na década de 60.
Bebeto ainda jogou na Ferroviária, de Araraquara (SP), onde formou dupla com Bazani (já falecido). Depois disso, sua história é contada como profissional do futebol.
Curiosidades do Seu Bebeto
O idioma japonês
“Adulto, pra aprender outro idioma, tem dificuldade. Eu tinha vergonha de sair falando, que os outros iriam rir” diz, sorrindo.
Mas, ao voltar ao Brasil, no Vasco da Gama, que disputou a final do Mundial Interclubes em 1998 (o Vasco perdeu para o Real Madrid por 2 a 1), Bebeto teve a oportunidade de retornar ao país do sol nascente e praticar um pouco do idioma.
“Conseguia entender tudo, mas falar já era outra história. Bom, mas soube falar o suficiente para não passarmos fome”, conta, entre risos.
O Eurico Miranda é folclore?
Entre uma história e outra seu Bebeto sempre citava o Vasco da Gama, clube em que trabalhou por dez anos. E é impossível falar de Vasco sem falar em Eurico Miranda. Mas toda a imagem ruim de ditador passada pelo dirigente vascaíno não passa de exageros, segundo seu Bebeto.
“Ele é uma pessoa fantástica. Ou você o ama, ou você o odeia. Eu não posso falar mal dele, ele é meu amigo”, conta. Não tem nada de ele entrar o vestiário e escalar time, mandar gente embora. Eu convivi dez anos com ele, e fui chamado à sala dele duas vezes. Uma delas foi quando queria pedir demissão, estava cansado. Foi na época que o Oswaldo de Oliveira discutiu com ele no vestiário (uma semana antes da final da Copa Mercosul contra o Palmeiras). Eu fui pra casa, uns dias depois ele me ligou e pediu pra eu ir falar com ele. Fui, bati na porta dele e o Eurico perguntou o que eu estava fazendo ali. Eu disse que ele havia me chamado. E ele respondeu: “Eu te chamei pra vir trabalhar, não pra vir falar comigo!”.
As pessoas que estão lá dentro do Vasco são todas amicíssimas dele. Ele empresta dinheiro do bolso, ele ajuda, colabora. Toda aquela fantasia de homem mal não é verdadeira. Se não tem dinheiro na história eu confio nele!”
Ficha técnica:
Carlos Roberto Valente de Oliveira
Nascido em 10/10/1941
Como jogador, foi médio volante, com passagens por Ponte Preta, Guarani, Estrada de Sorocaba, AA Ferroviária, Corinthians (por menos de uma semana, ele insiste em deixar claro).
Como preparador físico, trabalhou nos seguintes times:
Ferroviária
Marília
Ponte Preta
Londrina (fazia parte da primeira equipe do interior do Paraná que foi campeã estadual)
São Paulo (1984-1990)
Guarani
Flamengo
Kashiwa (campeão da segunda divisão japonesa)
Vasco da Gama
São Paulo
Carlos Roberto Valente de Oliveira
Nascido em 10/10/1941
Como jogador, foi médio volante, com passagens por Ponte Preta, Guarani, Estrada de Sorocaba, AA Ferroviária, Corinthians (por menos de uma semana, ele insiste em deixar claro).
Como preparador físico, trabalhou nos seguintes times:
Ferroviária
Marília
Ponte Preta
Londrina (fazia parte da primeira equipe do interior do Paraná que foi campeã estadual)
São Paulo (1984-1990)
Guarani
Flamengo
Kashiwa (campeão da segunda divisão japonesa)
Vasco da Gama
São Paulo
Seu Bebeto também foi preparador físico da Seleção Brasileira em 1987.

Entrevista: Anna Luiza Rosa e Artur CoutoFotos: Murilo Ganesh
Bebeto, na sua passagem por Araraquara, também foi técnico da seleção feminina de Basquetebol da cidade, trazendo várias vitórias. Ele foi pai, mãe, professor e amigo, nunca desitindo de nenhuma de nós.
ResponderExcluirGrande reportagem sobre meu amigo Bebeto. Fiquei emocionado com seu texto e sua narrativa, excelentes! E fatos que nunca soube.
ResponderExcluirPrimeiro quero me apresentar: meu nome é Américo Ferreira de Camargo Neto, campineiro de “500 anos”, mas atualmente com 66 anos de idade, quase 67, dez anos mais jovem que Bebeto, que nasceu em 1941 e eu 10 anos depois, em 1951. Moro em Sousas, distrito de Campinas.
Conheci Bebeto, mas ele não me conhecia, por volta de 1964 quando morava no bairro Proença, exatamente na Rua Proença que ficava em frente ao estádio do Guarani. Esse bairro era um celeiro de craques, pois dali brilharam o técnico Zé Duarte, preparador físico Pedrinho Pires, jogadores como Wagninho (já falecido e que jogou tanto no Guarani como na Ponte Preta e acho que também Paulista de Jundiái), o também falecido Sergio Moraes, um excelente meio campista que jogou pela Ponte, Paulista e Noroeste), por ali também residiam o quarto zagueiro Heraldo (ainda vivo e sempre no café Regina, no centro de Campinas), seu genro Sidnei, já falecido e que brilhou como goleiro no Guarani e Corinthians, o lateral Diogo, falecido hás uns dois anos atrás), o também falecido atacante Carlinhos, e tantos outros que não me recordo no momento. Fui até vizinho de Armando Renganeschi, então técnico do Guarani no campeonato Paulista de 64 e da grande vitória do Guarani sobre o Santos de Pelé por 5 X 1, jogo este que assisti das gerais, no meus 13 anos e de boca aberta ao ver que metade do juvenil de Zé Duarte, aplicar essa inesquecível goleada. Me lembro até do time do Guarani dessa época: defesa: Sidnei, Osvaldo Cunha, Ditinho e Diogo – meio campo: Hilton Porco ou Tião Macalé e Américo Murolo – ataque infernal de Joãozinho, Nelsinho, Babá e Carlinhos (o mais alto Babá, não chega a 1,70mt!)
E Bebeto nessa época, juntamente com seu irmão Nene, faziam o meio de campo do aspirante do Guarani que disputa o campeonato da categoria, juntamente com o time principal, fazendo as preliminares desses jogos. Corinthians era o melhor de todos, com Rivelino e Cia, que faziam os torcedores chegarem mais cedo aos estádios.
Tudo isso deve fazer as pessoas pensarem que sou bugrino roxo! Ledo engano: sou pontepretano roxo, e na época um menino de 13 anos que poderia ver seus ídolos de álbuns de figurinha ao vivo, em frente sua casa, e aos sábados, assistir a Ponte Preta na na 2ª divisão (que na época era chamada divisão de acesso ou 1ª divisão, que por sua vez chamava-se Divisão Especial). Houve no ano seguinte, a decisão dessa divisão de acesso, em março de 1965 entre Ponte Preta X Portuguesa Santista, que venceu e subiu para a Divisão Especial, graças a um gol de Samarone, do meio da rua, numa grande falha do goleiro Anibal. Mas este é um assunto que fica para outro momento.
Voltando a falar de Bebeto, que no ano seguinte se transferiria como professional para a Ponte Preta, nessa época morava com sua mãe, seu irmão Nene (que se profissionalizou no Guarani em 1966 e depois de alguns anos desistiu do futebol para trabalhar na área de vendas) e não sei se tinha mais irmãos ou irmãs. Moravam num casarão de cômodos (cortiço como chamavam) na Av. Moraes Salles, centro de Campinas. Essa avenida tinha muito casarões antigos, quase abandonados e que eram alugados as famílias mais pobres, que se dividiam entre seus cômodos. Portanto, a origem de Bebeto e Nene era das mais humildes. Nessa época, entre meus 13-15 anos acompanhava tantos os jogos do Guarani quanto do meu time do coração, a Ponte Preta, e vi Bebeto jogar pelos dois times, sempre com muita dedicação, embora não fosse um meio campista destacado. Era titular nos times pela sua vontade, fibra e caráter, qualidades essas que conserva até hoje. (continua no próximo comentário, por falta de espaço neste?
(continuando)....Como já disse, conhecia Bebeto mas ele não me conhecia, o que viria acontecer 20 anos depois, mais precisamente na Escola Estadual Tomas Alves, em Sousas, distrito de Campinas, onde fui trabalhar e Bebeto era professor de Educação Fisica, concomitantemente com seu trabalho de preparador físico do Londrina, onde foi campeão e ganhou do presidente uma Belina OKm!
ResponderExcluirOlha só o que Bebeto fazia para conciliar essas duas funções: depois do jogos do Londrina aos domingos, vinha direto para Sousas, onde chegava na escola de madrugada. Batia na porta do falecido zelador, Bene, o Fumaça, que já preparava o banheiro onde eram colocados um colchão e cobertas, onde Bebeto dormia algumas horas para no dia seguinte, segunda feira, fazer a loucura de ministrar das 7:00hs da manhá até às 21:00hs as 20 aulas semanais de sua carga horária na escola. É lógico que tinha a colaboração de dona Antonia Bombach, diretora da escola (por sinal, excelente diretora e falecida no ano passado) que permitia aquela maratona de aulas em um só dia.
Eu, que nessa escola trabalhei de 1983 a 1989, tive a oportunidade de ver Bebeto fazer essa maratona até, acho que por volta de 1985, quando foi trabalhar no São Paulo e, embora muito mais perto que Londrina, ficava mais difícil, devido a suas atribuições num grande clube como era o tricolor, na época dirigido por Otacilio Pires de Camargo, o Cilinho, onde formaram aquele grande time dos “Menudos” com Silas, Careca, Miller, Pita, Sidney, etc.. Seu trabalho foi tão reconhecido, que foi convocado para ser preparador físico da Seleção Brasileira que disputaria a copa de 1986 no México.
Mas voltando a Bebeto e seu trabalho na escola: nas poucas horas vagas que dispunha, ficava na secretaria da escola batendo papo com a gente, contando suas peripécias futebolísticas, as dificuldades da infância e tantos outros assuntos interessantes. Contava por exemplo que suas mãe, que trabalhava como faxineira, colocava a mesa sempre com dois pratos: para ele e para Nene, nunca para ela, que alegava já ter comido no serviço. Uma mentira de mãe extremosa que provocava lágrimas em Bebeto; nunca falou de seu pai e apenas fique sabendo que se chamava “Barriga” e que jogou na Ponte Preta, através deste blog. E por essas e tantas outras necessidades, é que não abandonava o magistério, que muito mais que o futebol, era uma conquista de um menino pobre que tinha se graduado numa faculdade.
Por volta de 1987/88, Bebeto viria a sofrer um grande “baque” com a morte de seu filho mais velho (que não me recordo o nome) um moço nos seus 20 anos, com dois metros de altura, e que morreu por problemas cardíacos. Esse fato terrível, causou em Bebeto, alguns anos depois, um infarto e por sorte estava nas dependências do São Paulo, onde foi prontamente atendido e salvo. Diante disso, teve que solicitar uma licença na sua carreira de professor e depois de recuperado, deu sequência à sua carreira de preparador físico no São Paulo e posteriormente em outros clubes.
A partir daí, não convivi mais com Bebeto, já que saí da Escola Tomás Alves em 1989, indo para uma outra escola, esta privada, onde me aposentei e continuo trabalhando até hoje.
Mas isso não impediu que nossos vínculos se cortassem, já que Bebeto era licenciado na escola e vez ou outra aparecesse por lá prá matar saudades, como dizia, e ficava sabendo através dos antigos colegas as novidades na vida do antigo e querido colega.
(finalizando)....Alguns anos depois, fiquei sabendo de outros dramas na vida de Bebeto, como a separação da esposa, e posteriormente, outro acontecimento terrível: a morte de seu outro filho mais novo, também no auge de seus 18/19 anos, tão alto ou gigante como o primeiro e que teve a mesma morte por insuficiência cardíaca.
ResponderExcluirDesde então, nunca mais vi Bebeto, que tinha ainda 3 filhas, sendo que uma cursava medicina no Rio de Janeiro e era seu orgulho. Não sei se formou, se as outras casaram, se Bebeto é vovô...
Ele tinha sua residência no bairro Chapadão, área nobre de Campinas e próxima a Escola de Cadetes e uma chácara no distrito de Sousas, cuja venda foi intermediada por meu pai (falecido em 01/01/1986) e onde pretendia construir uma casa e morar no futuro. Essa chácara fica na av. Mario Garnero, área rural de Sousas, estrada vicinal para Pedreira. Talvez esteja por lá.. quando souber aviso!
Mais uma vez, parabéns pela sua abordagem sobre Bebeto, um desses heróis desconhecidos nos dias de hoje, exemplo de superação, dedicação e coragem e uma força descomunal para sobreviver com alegria a todas desventuras e desgraças que sofreu.
Américo – 07/junho/2018 – 15:20hs
PS.: Tenho um primo por parte de minha prima irmã Carmen Lucia, muito conhecido aí em Marilia, ou pelo menos foi, como dentista, prof. da faculdade de odontologia, comentarista esportivo das rádios locais, grande orador e cantor de tango: Orlando Mendonça. Você o conhece? Me responda pelo e-mail americo.camargo@eac.com.br.
Professor Bebeto um exemplo a ser seguido
ResponderExcluirProfessor Bebeto um exemplo a ser seguido
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