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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Wilson Francisco Alves "Capão" - O AMIGÃO.

Esta foi a reportagem publicada na "revista Placar de 1975 :
 O Técnico do Marília - o mais bem pago do interior paulista - não acredita em estratégias complicadas.
WILSON, O AMIGÃO

Conhecido e bem cotado em todo o interior de São Paulo, Wílson Francisco Alves é no entanto um cara muito simples. Nem em volta da mesa de um bar ele deita falação sobre táticas e estratégias. Para ele, futebol é muito mais fácil: o fundamental é amizade dos jogadores.

Camisa amarela bonita para fora da calça verde de helanca, sapatos brancos, óculos escuros, um pouco barrigudo, nariz afundado de boxeador, o bigode aparado com capricho, lá vai o crioulo bem contente pelas ruas de Marília.
- Ganhamos domingo ? - pergunta um torcedor.
- Opa! - exclama em resposta.
- O senhor é "bão" mesmo - afirma outro passante.
- Vou enganando. Um dia aqui, um dia ali.
- O MAC acaba com eles, não acaba ? - quer saber um engraxate na esquina.
- Se os meninos tirarem o salto alto...
O crioulo bem-humorado, com ar de realizado na vida, chama-se Wilson Capão. Ou melhor: Wilson Francisco Alves, que esse é seu nome todo. Ganhou o aplelido por ter nascido no Morro do Capão, no Rio. Mas, havendo quem o pronuncie com leve malediciência, não gosta dele. Prefere que o tratem por Wilson - ou Virson mesmo, como dízem em várias regiões do interior do estado de São Paulo.
De Sorocaba a Bauru, de Jundiaí a Rio Preto não há quem não o conheça. Hoje, dirigindo o Marília (MAC , segundo sua animada torcida). é o mais caro técnico do interior paulista. E, sem dúvida, aos 45 anos, uma estrela em ascensão.
Numa cidade que algumas vezes dá a impressão de viver exclusivamente em torno do futebol, Wilson Capão parece um vice-rei. Tem um prestígio tão grande como o de qualquer um de seus jogadores mais famosos. Quando sai do pequeno hotel "A Morada" para almoçar na "Cantina do Leão" nunca é abordado por menos de 15 pessoas, com as perguntas do dia. Entre um e outro há a distância de um quarteirão apenas.
- É por isso que não gosto de trabalhar mais do que um ano num mesmo clube. Conquisto tantos amigos que na hora de renovar acabo mais preocupado em agradá-los do que em ganhar dinheiro.
AMOR SÓ AO VASCO
Na semana passada, um desses amigos, de Rio Preto, foi lhe perguntar se era verdade que, por gostar muito do time, dirigiria o América pela metade do preço ?
- Que é isso, seu? - espantou-se Wilson. - E o leite do Jorginho ? Meu filho tem de vivier. Trabalho por causa do tutu, no duro.
Na mesa de um bar, em torno de umas cervejas, quem puxar uma conversa sobre futebol talves fique surpreendido. Ele lembra escalações antigas, troca alguns nomes, evoca decisões históricas, fala de grandes jogos e levará o papo dentro dessa linha pela noite afora. Mas jamais botará banca como estrategista, nem vai discorrer a respeito de táticas, caminhos naturais de um diálogo com Tim, Oto Glória ou Rubens Minelli. Muito menos abrirá a boca para assuntos mais quentes - como doping, suborno e corrupção - o que fatalmente aconteceria se quem segurasse o copo, do outro lado, atendesse pelo nome de Alfredo Sampaio ou Nelson Filpo Nuñes.
Por duas razões. Primeira: não se considera um estrategista, detesta mesa de botões, dispensa o quadro- negro e entende que lhe basta um rápido bate-papo superficial para ganhar a confiança da equipe. Segunda: não acredita na existência do difundido hábito do consumo de excitantespara auxiliar no rendimento atlético e tampouco na prática de se engavetar árbitros e adversários para ganhar jogos.
- Tudo bobagem - ele diz.
E muda de assunto. Conta então que foi um beque comum, sem maiores qualidades, com passagens pelo Vasco ( de 1942 a 1952), Portuguesa Santista  e Santos , onde parou em 1958.
- Fui mais reserva do que titular. No Santos, por exemplo, treinava no time de baixo em 1955, 1956. Mas garanto que este era o melhor do que o outro. Quer ver a nossa escalação ? Barbosinha; eu e Feijó; Cassio, Fiotti e Urubatão; Dorval, Jair, Pagão Pelé e Pepe.
Apesar disso, ficou é torcedor do Vasco. "meu único clube de coração". Como técnico, porém, não saiu de São Paulo. Esteve quatro vezes no São Bento (que com ele foi tricampeão do interior), duas no América e uma no Guarani, no Noroeste, no Paulista e na Prudentina (em 1961, quando subiu para a primeira divisão, atual especial). Sem contar duas temporadas na Portuguesa de Desportos, único grande por onde passou até agora.
- Ser técnico de time pequeno do interior é mais fácil. Os diretores, de maneira geral, não querem ocupar nosso lugar, como muito cartola da capital. Em time grande só nos exigem vitórias, títulos. Lá não se pode perder. Aqui eu posso. Desde que não exagere.
O que não significa que se sinta realizado em sua área de atuação.
- Nada disso. O interior para mim é trampolim. Eu ainda vou chegar à capital.
VIDINHA BOA
Acima de tudo, entretanto, nada o agrada mais do que a vida das pequenas cidades e seu futebol.
- Veja que beleza nosso futebol do interior, quantos craques estão sendo revelados. Se fosse formada uma seleção de novos, agora, tinham que colocar o Zico do Flamengo e o Cléber do Fluminense, claro. Mas ninguém poderia esquecer o Didi do América de Rio Preto, o Édson do São Bento, o Geraldão, o Cunha e o Sócrates do Botafogo de Ribeirão Preto, o Valtinho da Ponte e , aqui no Marília, o Nélson Lopes, o Toninho e o Dárcio.
Se realmente retornar à capital - com a credencial de ter lançado jogadores como Zé Maria, Marinho, Leivinha, Basílio, Mirandinha, Paraná e vários outros - , será para aplicar os mesmos métodos que empregou nas equipes pelas quais passou.
Basicamente , ele trabalha à distância dos cartolas, advertindo-os logo ao assinar contrato :"Vocês contratam. Eu escalo". Procura ser amigo de todos os seus jogadores, mas não admite que nenhum fique mascarado: "Ou você tira o tamanco ou eu tiro você do time". Exige que cada um lhe conte os seus problemas sem rodeios: "Quando se abrem, eu faço tudo que posso. Se um tem a coragem de vir confessar que na véspera farreou com mulheres, não tem galho. Ele treinará menos do que os demais".
Mas há um ponto extremamente controvertido no sistema de Wilson Francisco Alves: sua declarada má vontade contra jogadores que têm liderança dentro do elenco.
- Não gosto de líder no time. Em cada jogo escalo um capitão diferente. E faço isso por achar que o líder acaba sempre se prejudicando. Ele recebe uma carga de responsabilidade muito maior do que os outros. Minha equipe não tem cabeça. O cabeça sou eu, Wilson.
Com sua vivência e sua capacidade, ele não entenderia a importância do papel do líder num time de futebol? De um Zito, com quem chegou a jogar, por exemplo?
- Esse é um ponto de vista meu, já firmado. O Zito gritava em campo, mas não era o único. O Álvaro e o Jair da Rosa Pinto também gritavam. Essa responsabilidade tem de ser dividida entre todos, porque do contrário outros acabam sofrendo, como os mais novos. Às vezes, um xingamento pode arrasar um jogador jovem. Então, eles sabem que quem manda sou eu mesmo, fim, e que lá no banco, durante o jogo, está o lider. Um líder que é amigo deles todos.
NÃO COMPLICAR
Fora isso, Wilson Francisco Alves é um homem de hábitos comuns. Seus maiores prazeres: jantar com os amigos numa churrascaria e, depois dos jogos, encontrar-se com a mulher e o filho em Rio Preto (170 quilometros de distância), onde mora há vários anos. Como técnico, faz questão de "não complicar". Evitando preleções mais longas ou mais profundas, agrada a seus jogadores.
No vestiário, meia hora antes das partidas, sempre muito calmo, chama primeiro os jogadores do meio-campo, depois os zagueiros e finalmente os atacantes. Com cada grupo, diz que um ou dois minutos o que deve ser feito: "Você marca fulano, você cola em beltrano e você cai pela esquerda". Ou: "Você sobra, você dá o primeiro combate". Seguindo-se uma pergunta inútil: "Entenderam?". Reúne o time escalado, informa qual é a direção do vento ("Vamos atacar no primeiro tempo para cá"), recomenda que ninguém ligue para a torcida, lembra que a partida "é muito difícil" e pede, em tom quase dramático, que "não rebolem e não façam frescuras". Pronto. Agora é subir para o campo, dar alguns gritos durante a partida "e seja o que Deus quiser".
Tanta simplicidade não impede que seu trabalho vá dando certo. O Marília, com uma folha de pagamento de 100 000 cruzeiros mensais (10 000 são para ele, livre de despesas de casa e comida), um elenco reduzido (quinze profissionais e cinco amadores) e apoiado no entusiasmo de uma cidade de 120 000 habitantes, a cerca de 450 quilômetros de São Paulo, está fazendo uma boa campanha no Campeonato paulista.
Nas mãos de Wílson, Neuri mostra-se novamente um goleiro seguro e tem esperanças de ser lembrado para disputar o próximo brasileiro. Tinho e Dárcio, vindos do Flamengo e Portuguesa, emprestados, formam uma das melhores duplas de zaga do interior. O lateral esquerdo Mineiro anda jogando tão bem que alguns torcedores mais ufanistas e apressados chegam a garantir que ele disputará uma vaga na Seleção com Marinho e Vladimir. Dispensado pelo Palmeiras, o volante Zé Carlos transformou-se numa peça importante do Marília, cobrindo os beques com categoria, jogando com a raça que Osvaldo Brandão lhe cobrava no Parque Antártica e empurrando o time par aa frente.
Mas o criador de jogadas, a peça chave, é o corintiano Nélson Lopes, atravessando uma das fases mais felizes de sua carreira. O presidente do clube, Pedro Pavão, comerciante de peças de automóveis, pede aos repórteres para não elogiarem o meia-armador, "porque talvez assim o Coríntians faça um abatimento no preço do seu passe", fixado em 200 000 cruzeiros, como se Nélson estivesse jogando em estádios clandestinos, longe dos olhares da torcida, dos cartolas e da imprensa. O ataque se enfraqueçeu com a contusão do artilheiro Itamar, embora haja esperanças no ponta-de-lança Roberto, de 19 anos, e no meia Toninho. (No futuro, provavelmente se falará bastante de Larri, um talentoso meia-esquerda que explode no juvenil.)
- O importante - afirma Wílson - é que o Marília jogue sem medo, como aliás todo time que dirijo. E com lealdade. Eu vivo dizendo a eles que as duas coisas combinam perfeitamente, porque fui um zagueiro duro, viril, corajoso e nunca me expulsaram de campo.
Os jogadores obedecem. Afinal, Wílson Capão ganhou o Belfort Duarte.
Carlos Maranhão.
Fonte : Revista Placar.

Abaixo o time de 1975 do Marília:
Em pé : Carlos Roberto, Zé Carlos, Ademir, Dárcio, Mineiro e Neuri. Agachados: Quita, Toninho, Itamar, Nélson Lopes e Ferreira.

Fotos do "Capão" defendendo o MAC:






No primeiro turno o MAC classificou-se em 6. lugar.

Um comentário:

  1. SENSACIOANAL! Há muito tempo queria encontrar essa escalção que vi jogar ainda pivete em Marilia! Parabéns Nelson!

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